A pá/lavra pedra pássaro poema a lavra quando deixa de ser puramente estática cria movimento como voo da última para o infinito
Retalhos Imortais do SerAfim
Itabira
pedra que não respira
explode pira
Artur Gomes
Drummundana Itabirina Por Onde Andará Macunaíma?
lançamento nesta quarta 23 de setembro das 18 às 22h na Cafeteria CoffeBreak – Av. Henrique Valladares, 17ª – Lapa – Rio de Janeiro – Brasil
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Herbert Emanuel, poeta e integrante do Tatamirô da Poesia
*
Entre as pedras de Itabira e os desvãos de São Paulo ou do Rio, nas curvas do rio Itabapoana e nos becos da favela, existe um lugar poético onde todos os tempos e todos os mitos convergem. Este lugar é a língua afiadíssima de Artur Gomes. Em “Drummundana Itabirina: por onde andará macunaíma?”, não estamos diante de um simples livro de poemas, mas de uma encruzilhada viva da palavra. Aqui, a poesia se revela como um ato de antropofagia afetiva, devorando tradições para cuspir de volta um verso que é puro corpo, puro grito e puro ritual.
Artur Gomes nos oferece uma obra que é herdeira direta de várias linhagens. Esta apresentação é um convite para atravessar essa ponte, essa “Ponte Grande, a ponte para o outro lado do rio”, que ele constrói entre a tradição e a ruptura, citando exclusivamente o universo que nasce de seus próprios versos.
Tudo começa, como não poderia deixar de ser, em Itabira. Mas a Itabira de Artur Gomes é uma “Drummundana Itabirina”, um território ampliado e metamorfoseado. Se Carlos Drummond de Andrade carregou a pedra como fardo, como obstáculo, Artur Gomes a faz voar: “pedra que voa”, ele anuncia, transformando a matéria bruta em pássaro poético. Ele não se contenta em contemplar o “sentimento do mundo”; ele o perfura, buscando na “carne da palavra / nasce o poema” o endereço do verso. Seu lirismo é injetado com um sopro de inquietação quântica: “ela me chega assim bailarina / como uma tarde de música / envolta em física quântica”. A pergunta do título, “por onde andará macunaíma?”, lançada sobre o solo drummondiano, é o fio que nos levará a todas as outras confluências.
Macunaíma, o herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade, não é uma figura do passado. Ele é um rastro, um fantasma ativo que o poeta persegue. O poema que dá nome ao livro narra justamente esse percurso:
“É bem verdade que em 2022 / Macunaíma passou pela Geleia Geral… / rumou para as quebradas… / foi deitar no colo da Carlos Drummond de Andrade em Itabira.”
Este trecho é um manifesto. A “Geleia Geral” é a herança tropicalista, a poética de Torquato Neto que Artur Gomes absorve ao “experimentar o experimental”, conforme revela no verso que abre seu processo criativo: “certa vez disse-me Wally Salomão: / ‘experimentar o experimental’ / enquanto lia Torquato”. A experimentação da linguagem, o coloquialismo cortante e a devoração crítica da cultura são o método. Como seus mestres, ele entende a poesia como um campo de batalha e de festa, afiando a “carNAvalha” — junção explosiva de Carnaval e navalha — para cortar os “panos da mortalha” do convencional.
Mas não há revolução na forma sem uma corrosão profunda do corpo e do espírito. Ou melhor: do corpoespírito. A isso chegam os poetas malditos. Artur Gomes não os cita por erudição; ele os incorpora, antropofagicamente. Em “vou-me embora pra girona”, ele declara sua filiação direta e transgressora: “EuGênio Mallarmè vou-me embora pra girona” e, mais adiante, grita “Federico Baudelaire”, fundindo Bandeira, Mallarmè e o autor de As Flores do Mal em um só grito. Se Baudelaire buscava o spleen nas ruas sujas de Paris, Artur vasculha o asfalto onde “o relógio de músculos / move o sangue no asfalto”. Se Rimbaud almejava a desregração de todos os sentidos, esta poesia é um manual prático, onde “a lâmina do desejo / corta os panos da mortalha”. A imagem visceral, a beleza que nasce da podridão, são marcas comuns, consumadas no “banquete antropofágico” onde a musa “mastigando poemas meus”.
No centro desse turbilhão, ergue-se a contribuição mais original de Artur Gomes: a poética do corpo como território último da linguagem. Seu verso não é apenas dito; ele é dançado, suado, sangrado. Ele declara: “poesia é meta física / meta quântica”, para em seguida nos mostrar que essa física se faz na carne:
“no carnaval de Madureira / nasce entre a carne a medula o / sangue a nervura da alma e a / escritura dos ossos”
Aqui, todas as linhagens se fundem. O corpo carnavalizado é a resposta à pergunta por Macunaíma. É a herança, a crítica social, a festa antropofágica, o êxtase e a agonia. A palavra se torna gesto, o poema se torna “um beijo na boca”. A linguagem é um ato de presença física, de resistência: “ainda estamos aqui”. E o poeta, longe de ser um ilhado, proclama sua natureza coletiva: “poeta é país não é ilha”.
Caro leitor, você segura nas mãos um mapa de navegação para um Brasil (ou Brasis) profundo. “Drummundana Itabirina” não oferece respostas fáceis. Pelo contrário, ele afia a carNAvalha das perguntas e das inquietações. Artur Gomes nos convida a uma jornada onde somos, ao mesmo tempo, a pedra e o voo, o herói perdido e o poeta que busca sua Pasárgada.
Aceite o convite. Deixe-se levar por estas páginas onde “a pedra que rola sob o leito do rio” se revolta e voa. Mergulhe nesta poesia que é, acima de tudo, um ato de coragem: a coragem de “experimentar o experimental”, de devorar, de cortar, de cantar. A viagem é visceral. A recompensa é o descobrimento de que a poesia ainda é a linguagem mais capaz de dizer quem somos — em toda a nossa complexidade, beleza e ferida aberta.
Agora, vire a página. O banquete está servido.
Mazagão, 04 de janeiro de 2026.
*
Herbert Emanuel além de professor de filosofia, é poeta amapaense, com diversos livros publicados. Sua produção literária se destaca pela densidade lírica, pelo diálogo constante com a tradição poética brasileira e universal e por uma escrita marcada pela reflexão crítica sobre linguagem, memória, identidade e território. Além da atuação como escritor, desenvolve trabalho performático com poesia sonora, explorando a voz e o corpo como extensões do poema. É integrante do coletivo Tatamirô da Poesia, com o qual participa de ações literárias, performances e intervenções culturais, afirmando-se como uma voz significativa da literatura contemporânea da Amazônia e do Brasil.
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Balbúrdia PoÉtica Por Ética
manifesto anti-barbárie – dia 23 setembro as 18 às 22h – Coffe
Break – Av. Henrique Valladares, 17ª – Lapa - Rio de Janeiro – Brasil
O Quinteto Enluarado no centro
do quadrado comanda a Balbúrdia PoÉtica por Ética com
profundo amor pela Arte contra o
genocídio e a barbárie
Poetas convidados para participações poéticas
Susana Vargas + Paulo Sabio + Lila Maia +Fátima Borchert +
Alexandre Brandão +Angel Cabeza + Jacinto Fábio Correa =
Mano Melo + Noélia Ribeiro +Alexandre Guarnieri + Igor
Fagundes + Igor Calazans + Marcelo Mourão + Anna Maria Fernandes + Dei Ribas +
Jorge Piri + Monica Serpa + Val Mello + Telma da Costa + Nuno Rau + Christovam
de Chevalier + Adriano Espínola + Salgado Maranhão + Carmen Moreno + Wanda
Monteiro + Maria Helena Latini + Carlos Orfeu + Lúcio Celso Pinheiro + Iverson
Carneiro + Mariana Valle + Ricardo Vieira Lima + Luiz Otávio Oliani +
Marisa Vieira + Rose Araujo + Victor Colonna + Sady Bianchin + Marcela Giannini
+ Sílvio Ribeiro de Castro + Margareth Bravo + Karla Julia
Atrações musicais:
André Marçal + Paulo Ciranda
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Curadoria : Quinteto Enluarado
Artur Gomes + Delayne Brasil |+ Eurídice Hespanhol + Jorge Ventura + Tanussi Cardoso
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Balbúrdia PoÉtica
Balbúrdia PoÉtica – Por Ética
Dia 23 – setembro – das 18 às 22h
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lista dos poetas convidados para participações PoÉticas :
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curadoria: Quinteto Enluarado: Artur Gomes + Delayne Brasil +
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