quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Artur Gomes 77

 


Dani-se morreale

 

se ela me pisar nos calos

me cumer o fígado

me botar de quatro

assim como cavalo

galopar meus pelos

devorar as vértebras

 

Dani-se

se ela me vier de unhas

me lascar os dentes

até sangrar o sexo

me enfiar a faca

apunhalar meus olhos

perfurar meus dedos

 

Dani-se

se o amor for bruto

até mesmo sádico

neste instante lírico

se comédia ou trágico

quero estar no ato

 

e Dani-se o fato

deste sangue quente

em tua boca dos infernos

deixa queimar os ossos

e explodir os nossos

poemas físicos pós modernos


Artur Gomes

O Poeta Enquanto Coisa

Editora Penalux – 2020

https://secretasjuras.blogspot.com/



Poétttica

Imburi – essa palavra estranha
só existe em são francisco
e me arrisco
a pensar que seja engano
o biscoito de polvilho
farinha branca no trilho
morreu mais um – menos nada
a tapioca na telha
e o sol sumiu na estrada

Artur Gomes Fulinaíma 

www.fulinaimacentrodearte.blospot.com


esfinge


o amor
não e apenas um nome
que anda por sobre a pele

um dia falo letra por letra
no outro calo fome por fome
é que a pele do teu nome
consome a flor da minha pele

cravado espinho na chaga
como marca cicatriz
eu sou ator ela esfinge
clarisse/beatriz

assim vivemos cantando
fingindo que somos decentes
para esconder o sagrado
em nosso profanos segredos

se um dia falta coragem
a noite sobra do medo

na sombra da tatuagem
sinal enfim permanente
ficou pregando uma peça
em nosso passado presente

o nome tem seus mistérios
que se esconde sob panos

o sol e claro quando não chove
o sal e bom quando de leve
para adoçar desenganos
na língua na boca na neve

o mar que vai e vem
não tem volta

o amor é a coisa mais torta
que mora lá dentro de mim
teu céu da boca e a porta
onde o poema não tem fim

artur gomes
http://juras-seecretas.blogspot.com 


Jura secreta 7


fosse sampa uma cidade
ou se não fosse não importa
essa cidade me transporta
me transborda me alucina
me invadeinter fere na retina
com sua cruel beleza

como Oswald de Andrade
e sua realidade
como Mário de Andrade
e sua delicadeza

Artur Gomes
https://secretasjuras.blogspot.com/




Goitacá Boy

ando por são paulo meio araraquara
a pele índia do meu corpo

concha de sangue em tua veia
sangrada ao sol na  carne clara

juntei meu goitacá seu guarani
tupy or not tupy
não foi a língua que ouvi
na sua boca caiçara

para falar para lamber para lembrar
de sua língua
arco íris litoral como colar de uiara
é que eu choro como a chuva curuminha
mineral da mais profunda lágrima
que mãe chorara

para roçar para cumer para tocar
na sua pele urucum de carne osso
minha língua tara
sonha lamber do seu almoço
e ainda como um doido curuminha
a lamber o chão da Guanabara

Artur Gomes
musicado e cantado por Naiman, no CD Fulinaíma Sax Blues Poesia - 2002

clique no link para ver o vídeo
http://www.youtube.com/watch?v=Y0KKfii2BKY


Pedra Dourada


amo a pedra
onde mora
estive lá
já vim embora
assim sozinho
mas é como se a pedra
estivesse ainda em meu caminho

Artur Gomes

www.arturkabrunco.blogspot.com




Jura Secreta 98


fosse quântico esse dia
calmo claro intenso inteiro
20 de fevereiro
sendo assim esperaria

mesmo que em meio a tarde
TROVOADAS tempestades
insanidades guerras frias
iniqüidade
angústia
agonia
mesmo assim esperaria

20 horas
20 noites
20 anos
20 dias

até quando esperaria?
até que alguém percebesse
que mesmo matando o amor
o amor não morreria

Artur Gomes

www.secretasjuras.blogspot.com

 

a chícara é apenas um detalhe para pensar dela o café distraindo os olhos de coruja presos no umbigo

penso em vão não escrever certa vez comecei um poema com vírgula as curvas dos seios no branco do papel o caminho entre tecidos sob a pele para o túnel onde não passam automóveis a vírgula não é ponto apenas um sinal no início do poema que não precisa ter ponto final apenas curvas em direção a outras curvas para encontrar as outras vírgulas no início do poema

eu quero o tempo tempo tempo mesmo que seja cedo antes que seja tarde amanhecia setembro em bento gonçalves eu já pensava a carne dos pelos das folhas das polpas das uvas no vale dos vinhedos do cachorro louco janelas do apartamento da cidade alta os poemas pintados por juliana as costas nua na  contra luz nascendo o dia antes arte do que nunca um congresso brasileiro de poesia quero o temo tempo tempo quero quero nos pampas vagalumes acendendo suas lanternas na garoa das madrugadas uma guria na esquina me pedindo um gole de cerveja quantas eras quantas anas já tivemos tantas já fizemos quantas e o quântico volátil como éter se evapora quando é luz do dia.


Tudo Arde - poema em construção

 

suspenso

       no Ar

não penso

atravesso o portão da sua casa

o corpo em fogo

a carne em brasa

tudo arde

nas cinzas das horas

no silêncio da tarde

vou entrando sem alarde

sem comício

como um pássaro

que acaba de cantar

em pleno hospício


Pontal Foto.Grafia



Aqui,
redes em pânico
pescam esqueletos no mar
esquadras – descobrimento
espinhas de peixe
convento
cabrálias esperas
relento
escamas secas no prato
e um cheiro podre no
AR

caranguejos explodem
mangues em pólvora
Ovo de Colombo quebrado
areia branca inferno livre
Rimbaud - África virgem –

carne na cruz dos escombros
trapos balançam varais
telhados bóiam nas ondas
tijolos afundando náufragos
último suspiro da bomba
na boca incerta da barra
esgoto fétido do mundo
grafando lentes na marra
imagens daqui saqueadas

Jerusalém pagã visitada

Atafona.Pontal.Grussaí

as crianças são testemunhas:
Jesus Cristo não passou por aqui

Miles Davis fisgou na agulha
Oscar no foco de palha
cobra de vidro sangue na fagulha
carne de peixe maracangalha
que mar eu bebo na telha
que a minha língua não tralha?
penúltima dose de pólvora
palmeira subindo a maralha
punhal trincheira na trilha
cortando o pano a navalha

fatal daqui Pernambuco

Atafona.Pontal.Grussaí

as crianças são testemunhas:
Mallarmè passou por aqui

bebo teu fato em fogo
punhal na ova do bar
palhoças ao sol fevereiro
aluga-se teu brejo no mar
o preço nem Deus nem sabre
sementes de bagre no porto
a porca no sujo quintal
plástico de lixo nos mangues
que mar eu bebo afinal?

www.secretasjuras.blogspot.com 





Santa Clara/Guaxindiba/Sossego –

 

não sei se clara

pode entender claramente

como amo

claro que nem tudo

ainda foi dito

escrito falado pensado

nem clara mesmo

imagina o quanto quero

e pode até se assustar

com tanta fala

mas clara ainda

não sabe que na sala

a vela acesa

em noite escura

ainda é clara


certa vez em vila velha na vitória do espírito santo trepei no bonde no centro histórico da cidade velha enquanto andra mirava seus olhos sobre os meus nada me disse em seu silêncio de dizer tanto

Artur Gomes

www.fulinaimargem.blospot.com

 
ser ou não ser quando não é acaba sendo um teatro do absurdo a não realidade por onde escorrega toda lama por onde vaza toda e qualquer trapaça a olho nu a destruição como normalidade onde estamos como chegamos até aqui dessa forma tão estúpida entre correntes e algemas invisíveis a ditadura oculta dos que disfarçam as intenções premeditadas o rio emporcalhado nas ações clandestinas como se pregassem a coisa justa em nome do mercado deus da propriedade enquanto isso o tempo gira

Artur Gomes 

https://fulinaimargem.blogspot.com/


Juras secretas de um trovador contemporâneo

                                     por Adriano Moura

 

“Só uma palavra me devora / Aquela que meu coração não diz”. Esses versos de Jura secreta, canção de autoria da compositora brasileira Sueli Costa e Abel Silva, conhecida por grande parte do público pela passionalidade interpretativa da cantora Simone, pluraliza-se e faz emergir Juras Secretas, décimo terceiro livro do poeta Artur Gomes. Não que haja intertextualidade explícita entre a canção e os poemas do livro, mas denota o intertexto como uma das principais marcas do poeta, recurso presente em seus livros anteriores.

 

Em SagaraNagens Fulinaímicas (2015), já se percebia um Artur Gomes um pouco distinto da ferocidade de crítica política predominante, por exemplo, em Couro cru & Carne viva (1987). Em Juras secretas, o poeta assume de vez sua faceta lírica, e é essa que pontua as cem “juras” que preenchem o miolo do livro.

 

Jura secreta 45

 

por enquanto

vou te amar assim em segredo

como se o sagrado fosse

o maior dos pecados originais

e minha língua fosse

só furor dos Canibais

 

E é com furor canibalesco que se nota, na tessitura poética de muitos versos, o poeta que se dedica também à leitura da literatura e de outras artes. Antropofágico, herdeiro de Oswald Andrade e do Tropicalismo, a língua do poeta devora tudo que o coração não diz para permitir que a poesia o diga. Hilda Hilst, Portinari, Glauber Rocha, são signos que denotam o repertório de um leitor-espectador de várias linguagens e que não esconde essas influências. Porém sua poesia não é enciclopédica. As alusões promovem efeitos sonoros e imagéticos que contribuem para o desenvolvimento de uma estilística pessoal e funcional.

 

Jura secreta 13

 

quantas marés endoidecemos

e aramaico permaneço doido e lírico

em tudo mais que me negasse

flor de lótus flor de cactos flor de lírios

ou mesmo sexo sendo flor ou faca fosse

Hilda Hilst quando então se me amasse

ardendo em nós salgado mar e Olga risse

olhando em nós flechas de fogo se existisse

por onde quer que eu te cantasse ou Amavisse

 

Artur Gomes é um dos poucos poetas que mantém viva a tradição da oralidade. Participa de vários encontros Brasil afora recitando seus versos como um trovador contemporâneo. Nota-se, na estrutura musical de sua poesia e nas imagens que cria, uma obra que se materializa por completo quando dita em voz alta. Mas mesmo no silêncio do quarto, da sala, da praia ou no barulho do carro, trem ou metrô; a poesia de Juras Secretas oferece viagens estéticas aos que sabem que a poesia não está morta como andam pregando por aí.

Jura secreta 43

com os seus dentes de concreto

São Paulo é quem me devora

e selvagem devolvo a dentada

na carne da rua Aurora

 

Adriano Carlos Moura

Mestre em Cognição e Linguagem (Uenf).

Professor de Literatura do IFF –

Doutor em Letras pela  Universidade Federal de Juiz de Fora-MG

fotos: Alice Maria Diniz

 

Transepoéticas I Festival de Brasília da poesia brasileira e Sax Blues Poesia

Museu da República – Brasília – junho de 2018


leia mais em 

https://fulinaimicamente.blogspot.com/



27 de agosto
com muito gosto
fazer setenta e sete
outra coisa me disse
fulinaíma
pra definir o que faço
o traço a cada compasso
pensado sentido vivido
estando inteiro
não par/ti/do
a língua ainda
entre/dentes
a faca
ainda mais afiada
a carNAvalha in/decente
escre/v(l)er
é tudo o que posso
pra desafinar os contentes
desempatar de/repente
o jogo dos reles bandidos
é tudo o que tenho feito
por mais que tenha sofrido
nas unhas dos dedos
nos nervos
na carnadura dos ossos

Artur Gomes

Hoje Balbúrdia PoÉtica especial
no Carioca Bar - Rua Francisca Carvalho de Azevedo, 17
Parque São Caetano - Campos dos Goytacazes-RJ
Espero vocês lá, a partir das 18h

leia mais no blog
Artur Fulinaimagens
https://fulinaimargens.blogspot.com/


terça-feira, 26 de agosto de 2025

a língua nova

língua nova

para Luis Turiba e Marisa Vieira

 

a nova língua

língua nova

escorre por céus de boca

saliva nativa

e ninguém com(prova)

 

minha pele roça tua pele

flor de manga me sangra

folhas moras pelo chão

 

pedra que ronca

mal secreto

meu poema linha curva

nunca reto

 

me desculpe fernando pessoa

sou argamassa do concreto

 

me segura criatura

que vou ter um troço

quando li wally salomão

juro que também posso

 

Artur Fulinaima

SubVersão Poética 

www.arturkabrunco.blogspot.com

Hoje estava lendo Magma o belo livro de poemas de Olga Savary e me lembrei de um poema que escrevi ainda menina quando morava em Guarapari.

Mar

de onde vens

e para onde vais

se as ondas

não param de ir

e vir

muitas vezes me trazem

coisas misteriosas

conchas que não sei

o que tem dentro

noutras apenas joga sal

em minhas coxas

e lambe entre minhas pernas

o que ainda não decifro

não sei o que Clarice

iria pensar se lesse isso

mas Jaguar  tenho certeza

vai s sentir o macho

que Olga costuma apelidar de Mar

 

Rúbia Querubim

www.suorecio.blogspot.com

antigamente escrevia com lápis depois caneta logo depois máquina de datilografia aí veio o ginásio indústrial e comecei a escrever na linotipo na oficina de tipografia meus primeiros poemas foram publicados tipograficamente impressos na própria oficina onde aprendi a ser linotipista coisa que essa nova geração já perdeu de vista 

Artur Gomes Fulinaíma

www.personasarturianas.blogspot.com

A CarNAvalha em

são luis do paraitinga

certa vez foi ao carnaval

de são luis do paraitinga

queria conhecer o povo caiçara

ver os folguedos de artifícios

no jogo do baralho

do batman com o coringa

mas o dilúvio nos aterrou na estrada

só chegamos em profunda madrugada

nem ás de copas

muito menos ás espadas

em nossa bagagem só cerveja

era o que restava

no culler da Federika

a mulher mais rica do bordel

da boemia

muito mais até que a Diva

a maior puta do país

o curral das éguas da planície

montanhosa em são luis

na madrugada iluminada

e como se diz lá nas quebradas

agora não se fala mais

agora não se fala nada

 

Federico Baudelaire

Subversão PoÉtica

www.personasarturianas.blogspot.com

canção de um realejo solitário

para Artur Fulinaíma

 

“ainda tenho o teu perfume

pela casa

ainda tem você na sala

porque meu o coração dispara

quando sinto teu cheiro

dentro de um  livro

dentro da noite veloz”

 

meu coração dispara

quando abro a porta

e não te vejo

na vertigem do dia

canção de um realejo solitário

quando não te beijo

eu imenso mar sozinha

como um peixe afogado em águas

de delírio e sal

Rúbia Querubim

Obs.: versos entre aspas Adriana Calcanhoto que me acompanhou ontem a noite inteira em minha solidão

www.personasarturianas.blogspot.com

descaminhos

para Rúbia Querubim

 

quando te procuro

e  não encontro

ando tanto tanto tanto

chego a gastar os tutanos

nos descaminhos

desse enredo

 

mas por enquanto

vou te amar assim

em segredo

 

Artur Fulinaíma

www.personasarturianas.blogspot.com

domingo, 24 de agosto de 2025

com os dentes cravados na memória

   Balbúrdia PoÉtica

 

Federico rasgou a rede

cortou a censura

colocou a dita/dura

                     na parede

 

poesia ali na mesa

geleia geral – relâmpagos

faíscas da surpresa

 

diariamente no blog

https://fulinaimagemfreudelerico.blogspot.com/



LEMINSKI E OS PERRENGUES DA BRUTALIDADE JARDIM

Há situações que poucos artistas gostam de mencionar, mas que considero importantes testemunhos para o entendimento de uma época.

Convivi muito com Paulo Leminski na segunda metade dos anos 80. Ele estava tentando se estabelecer em São Paulo e ficou hospedado no apartamento da cantora Fortuna, minha namorada na época. Já o conhecia e tínhamos um vínculo vigoroso, que se fortaleceu ainda mais no convívio quase diário deste período.

Leminski, ao contrário do que muitos pensam, era famoso em vida, tanto quanto um poeta pode ser. Mas, mesmo com sua intensa atividade criativa - e jornalística também - e com a repercussão de sua arte e de seu pensamento, passava perrengues do ponto de vista da sobrevivência.

Lembro de muitas situações e lembro vivamente de suas palavras, repetidas em diferentes circunstâncias: "O nível de competição no sistema capitalista está chegando a um estágio darwiniano."

Trocando em miúdos, em nosso bom e velho portuga-brazuka, o que ele estava dizendo era: "a sobrevivência está se tornando e se tornará cada vez mais barra pesada."

A minha leitura é que ele intuía com nitidez o neoliberalismo brutal que estava se instalando. Estou falando de um contexto que remonta há mais de 35 anos.

Um panorama dominado pelo culto exacerbado ao dinheiro, pela competição desmedida para consegui-lo, e pelo consequente desprezo pelas coisas da imaginação e do espírito criativo. Desprezo que chegou ao auge na era bozozóica, mas que já vinha sendo preparado pela entronização suprema do Deus Mercado, em que o "valor" das coisas criativas é avaliado quase que unicamente pelo seu sucesso de vendas.

Lembro muito bem das palavras de Leminski em uma entrevista: "Escritores acham indecente a ideia de o livro ser subvencionado pelo Estado em Cuba, mas não acham indecente seus processos criativos passarem pelo crivo de editoras comerciais, o que vale dizer, pelo mercado." Cito de memória, mas para os menos apressados, há um vasto campo de reflexão nessas palavras.

É possível que intuísse que neste panorama não haveria mais espaço para sua existência física, a existência de "um poeta em tempo integral", como se auto definia e como comprovava quem partilhava de seu cotidiano. Alguém entregue 24 horas por dia ao exercício do pensamento e da atividade criativa - por consequência, inábil e sem paciência para o mundo cão da sobrevivência.

Hoje o mercado e, felizmente, seus herdeiros, parecem faturar razoavelmente bem com sua obra. Algo que ele mesmo não conseguiu usufruir.

E isso diz muito a respeito de uma época. Época cão - sem ofensas a nossos queridos e adoráveis animais domésticos.

Ademir Assunção

“Sou, por temperamento, um vagabundo. Não quero dinheiro tanto a ponto de ter de trabalhar por ele. (...) Uma das coisas mais tristes que existem é que a única coisa que um homem pode fazer durante oito horas por dia, todos os dias, é trabalhar (...) E é por essa razão que o homem faz a si mesmo e a todos os outros tão miseráveis e infelizes.” (William Falkner)

É triste explicar um poema. É inútil também. Um poema não se explica. É como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida.” 

                                                 Hilda Hilst

EXTINÇÃO

Somos pedra, somos sopro - e somos o próprio tempo.
Somos sempre - e somos por enquanto.
Estamos tardios.
Destruímos a madrugada.
Voltamos à escuridão dos dias.
As noites nos são lágrimas amargas.
Nossas mãos estão fracas.
Os caminhos não mais indicam promissores ventos.
Tempestades estão anunciadas.
Somos rasgos no horizonte.
Ambiguidades desmedidas.
Esquecemos as regras, as regas, as podas.
As flores na varanda estão secas.

Somos poeira - e somos ventanias.
Estamos confusos.
As barbáries estão nas ruas.
Estamos cegos ao longo, ao largo
não vemos a distância - nem perto.
Miopias de hipótese,
de pensamento,
e de entendimento.
As sementes no quintal já não querem o broto.

Somos perdas - e somos restos.
Estamos arredios.
Dispersos. Raivosos.
Destruímos a ternura.
Mergulhamos em varreduras,
corações hipotecados
por nenhum preço estabelecido.
As crianças, sem horizontes, estendem tristezas endurecidas.

(Nic Cardeal, em 04.07.2019
)

O Brasil está 
decaindo até a Barbárie
Diz Tom Zé que lança “Língua Brasileira”

 "Língua essa que também marca sua identidade hoje no contraste com o inglês —tematizado em "Metro Guide"— e na poesia rascante do portunhol selvagem —"San Pablo, San Pavlov, San Paulandia", única música que Tom Zé assina em parceria, no caso com Douglas Diegues. Ou seja, uma língua impura e, mais do que isso, rica pela impureza.”

"Por fim, há a máxima subversão-molecagem, uma (im)possível síntese da "língua brasileira" defendida pelo baiano. Nada menos do que rasgar ao meio a palavra "latrinas" convertendo o som de "tr" num sonoro peido, no instante em que o migrante pergunta para a porção burguesa da metrópole de "San Pablo, San Pavlov, San Paulandia" o que "seria de ti sem nosostros los mais paraguaios, los kabroboles, los kabras de la peste". "E quem, quem limparia vostras latrinas?" Invenção e revolta, humor e experimentalismo —a língua deste país, a música de Tom Zé."

— Fragmentos de matéria bem bacana do Leonardo Lichote sobre LÍNGUA BRASILEIRA, del genial Tom Zé, na Folha Ilustrada deste sabadón canalha, careta y cobarde. En la nota del link citam la parceria com Tom Zé. Mas na versão impressa saiu assim:

"Língua essa que também marca sua identidade hoje no contraste com o inglês —tematizado em "Metro Guide"— e na poesia rascante do “portunhol” selvagem —"San Pablo, San Pavlov, San Paulandia". Ou seja, uma língua impura e, mais do que isso, rica pela impureza.”

Ou seja, cortaram la frase: "única música que Tom Zé assina em parceria, no caso com Douglas Diegues."

O que será que las bichas pseudo-londinenses que editam la Folha Ilustrada atualmente têm contra el nombre Douglas Diegues y el portunholito selvagem?

O ENCONTRO


somos ecos
de uma voz
antiga
ressoando
secularmente
milenarmente
nas praias
da verdade
sopros
de ausência
restituída
agora
encarnada
vívida
e a ser vivida
amor
batendo
às portas
do coração
da eternidade 


 TRÊS TOQUES PARA PENETRAR NA NOITE ESCURA  DESTA

PÁTRIA A(R)MADA

1

Artur Gomes é daqueles poetas que não se contentam em grafar suas palavras apenas nas páginas de um livro. Ele inscreve seus poemas no próprio corpo, na própria voz. Misto de ator saltimbanco e trovador contemporâneo, seus versos ritmados e musicais redobram a força quando saltam do papel para a garganta. O CD Fulinaíma – Sax, Blues Poesia, que gravou em parceria  com os músicos Dalton Freire, Luiz Ribeiro, Naiman e ReubesPess, nos primórdios deste terceiro milênio, é uma das experiências mais bem-sucedidas da fusão entre poesia oralizada e música: os versos lancinantes surgem como navalhas de corte preciso entre os blues, bossas, rocks e baladas. Navalhas que acariciam, mas também cortam a pele do ouvinte.

 Fragmento do prefácio de Ademir Assunção

 Leia mais no  Blog

https://arturgumesfulinaima.blogspot.com/

Balbúrdia PoÉtica - dia 23 setembro das 18 às 22h

Balbúrdia PoÉtica – Por Ética Dia 23 – setembro – das 18 às 22h Coffe Break – Av. Henrique Valladares, 17ª lista dos poetas convidados...